Che Guevara: Uma Síntese Biográfica

''Ernesto Guevara não hesita. Após anos de errância, da procura de si mesmo, ele encontrou finalmente uma missão em sua vida. Ele está pronto para morrer pela causa cubana, que se torna, aos seus olhos, a causa de toda a América Latina.” Trecho de Castro, l’infidèle, de Serge Raffy

Che Guevara - Uma Síntese Biográfica 02

I -Cronologia.

1928 – Nasce no dia 14 de maio, Ernesto Guevara de La Serna, na cidade de Rosário, Argentina. Filho de Ernesto Guevara Lynch e Célia de La Serna

1930 – Surge, pela primeira vez, a crise de asma de Guevara, sendo levado a Buenos Aires para fazer o seu primeiro tratamento da asma que o acompanhou durante toda sua vida.

1945 – Termina os estudos secundários. Muda-se para Buenos Aires, matricula-se na Faculdade de Medicina.

1946 – Trabalha na Direção Municipal de Vias Públicas.

1948 – Constrói uma bicicleta motorizada e com ela percorre cerca de 4.700 km pelo interior da Argentina. Escreve seus primeiros pensamentos políticos.

1952 – Em janeiro, juntamente com o amigo Alberto Granado, parte numa viagem de motocicleta numa viagem pela América Latina.

1953 – Conclui o curso de medicina. Viaja com a intenção de reencontrar Granado, na Venezuela, conforme combinado. Mudanças de planos o levam a ir para a Guatemala.

1954 – Após um golpe militar, organizado pelos EUA. Che asila-se na embaixada da Argentina por um suposto risco de vida, pois apoiava o antigo regime de Jacobo Arbenz. Conhece Hilda Galdea Acosta, militante peruana da APRA, exilada na Guatemala. Ao invés de voltar para a Argentina no avião enviado por Perón para repatriar os asilados prefere seguir para o México.

1955 – Casa-se com Hilda. Encontra-se pela primeira vez no México, com Fidel Castro e decide participar do movimento revolucionário de Cuba que visa derrubar o governo do presidente Batista.

1956 – Designado por Fidel como chefe de pessoal do acampamento. Em junho os grupo é detido pela polícia mexicana. Che cumpre 57 dias de prisão e torturas.

1957 – No dia 25 de novembro, Che parte no Granma para invadir Cuba. Juntamente com Fidel e Raul Castro e dezenas de revolucionários. Che é o médico do grupo com a patente de tenente.

1958 – Che torna-se comandante de uma segunda frente de combate. Em 28/12/1958 esta coluna entra em Santa Clara. Tomada decisiva de um trem blindado. No dia 31 de dezembro Batista foge de Cuba.

1959 – O movimento revolucionário é vitorioso. Che percorre, ao lado de Fidel e Raul, triunfalmente as ruas de Havana. Em setembro assume o INRA e logo depois o Banco Central

1960 – Ao mesmo tempo se intensificam os enfrentamentos com os norte-americanos e o real alinhamento com os soviéticos. Em novembro Che, em Moscou, assiste ao lado de Kruschev a comemoração do 43º aniversário da Revolução Soviética.

1961 – Em 17 de abril ocorre a invasão na baía dos Porcos, tentativa frustrada da CIA de derrubar o regime através de elementos contra-revolucionários. Che não participaria dos combates, mas correu risco de vida ao ser medicado com uma injeção antitetânica a que foi obrigado por conta de um tiro acidental. Che começa a divergir das posições soviéticas.

1962 – A instalação de mísseis nucleares, que não contava com a total aprovação dos Cubanos, seria mais um agravante no estremecimento de Che com os soviéticos. Talvez nesse momento, mais claramente, perceba que no que depender da URSS, Cuba seria mais um satélite, só que sob domínio do bloco socialista.

1963 – Che começa a ser visto com desconfiança pelos comunistas ortodoxos que o acusam de adotar uma posição maoísta.

1964 – Discursa na ONU, em 11 de dezembro. Parte para África e entra em contato com movimentos de libertação africanos.

1965 – Desaparece da vida pública e renuncia a todas as suas responsabilidades no governo e partido cubano.

1966 – Na segunda semana de setembro, Guevara chega a La Paz, Bolívia, com documentos falsos para participar do movimento revolucionário da Bolívia.

1967 – A guerrilha sofre muitos reveses e poucos resultados. No dia 8 de outubro Che é capturado, já ferido, com já reduzido grupo. No dia 9 é executado no povoado boliviano de Higueras, aos 39 anos de idade por boinas verdes bolivianos, exército treinado e armado pelos norte-americanos. Seu corpo após ser exposto para fotografias, para não deixar dúvidas de sua morte, é sepultado em local ignorado.

II – Do início.

Nascido em 1928 em Rosário, no seio de uma família politizada da classe média argentina, Ernesto Guevara de La Serna, filho de Ernesto Guevara Lynch e Célia de La Serna teve uma infância normal, abalada somente quando a partir dos 2 anos de idade se manifestaria sua primeira crise de asma, que o perseguiria por toda a vida. A doença, a qual ele nunca se entregou, seria entretanto determinante em diversos momentos de sua vida. E se não foi a principal responsável por sua prisão e conseqüente morte na equivocada tentativa de implantar um foco guerrilheiro na Bolívia, ela teve um peso não desprezível, tendo em vista que em busca de remédios que aliviassem as crises cada vez mais freqüentes e intensas, a coluna por ele comandada fez incursões perigosas e finalmente fatais, que não seriam necessárias em outras circunstâncias.

Mas durante sua vida a doença não foi maior que sua obstinada vontade de superá-la. Prova disso é que tanto na infância, quanto na juventude, e mesmo na vida adulta, dedicou-se a atividades desafiadoras a alguém com seu perfil de saúde. Quem poderia supor que o jovem dispensado pelo serviço militar argentino seria no futuro um dos mais hábeis comandantes militares da história recente mundial.

Desde a infância se mostra um ávido leitor, que passa rapidamente dos clássicos infanto-juvenis a Cervantes, Anatole France, Pablo Neruda, Horácio Quiroga, Garcia Lorca etc.

O despertar político de Guevara se deu por conta da Guerra Civil espanhola e a derrota republicana o deixaria abalado. Logo em seguida, com o início da II Guerra, se inscreve ao 11 anos na seção local da Ação Argentina, organização antifascista dirigida por seu pai. Com a ascensão de Péron ao poder, Guevara, assim como seus pais, assume uma posição antiperonista. Há, porém, relatos de um posterior descaso com o peronismo: “O surpreendente (…) não seria seu presumido seu antiperonismo, ao qual tudo o impelia. Tampouco seria de se estranhar (…) uma reação antagônica à de sua família (…). O que chama atenção é seu aparente desinteresse pelos acontecimentos mais excitantes da história moderna de sua pátria.” (Castañeda, p. 49).

Perón, fora observações espaças em correspondências com a família, em suas inúmeras viagens, só faria parte de sua agenda muitos anos depois, quando cogitou a hipótese de uma aliança com ele para implantar focos insurrecionais na Argentina. Mas nesse momento de sua vida, mais do que a política, o que o atrai é a aventura, o desconhecido.

Estudou medicina, talvez influenciado por seu próprio quadro de saúde, tanto que se dedicou algum tempo a pesquisa no campo da alergologia., chegando a publicar dois trabalhos sobre o tema.

Mas o que realmente o caracterizou nessa fase da sua vida foram as inúmeras viagens que empreendeu, verdadeiras aventuras. Em 1948, por exemplo, percorre 4.700 Km na Argentina numa espécie de bicicleta motorizada construída por ele mesmo. Che não era um turista clássico, de mala e hotel, era um viajante curioso, de mochilas nas costas, quase sem dinheiro e que preferia o contato com a realidade dos locais que visitava. Isso, sobretudo, moldou sua personalidade, e a compreensão do modo miserável de vida do povo latino-americano em geral o marcaria tão intensamente que tentar mudar essa realidade passaria a ser a sua bandeira. Mas não sabia ainda como, teria que esperar pelos acontecimentos.

Importa ressaltar que dessas viagens surgia a certeza que esse quadro não era uma peculiaridade desse ou daquele país latino-americano, mas do continente como um todo. Tanto que teria concluído que “a divisão da América em nacionalidades incertas e ilusórias é completamente fictícia” (Gonçalves).

III -Um “herói” errante à procura de uma causa.

Em 1952, juntamente com o amigo Alberto Granado, parte para uma longa viagem numa moto 500 cc., batizada de “La Poderosa”, de mochilas e sem dinheiro. A motocicleta não era tão poderosa assim: ficou no Chile, abandonada por problemas mecânicos. Mas a viagem prosseguiu, de ônibus, de trem, de carona. Foram ao Peru, à Colômbia e à Venezuela, sempre em contato com as populações locais e trabalhando, principalmente em leprosários.

Da Venezuela retornou à Argentina, com a finalidade de terminar seus estudos, mas já disposto a voltar à Venezuela, quando concluísse o curso. Esse retorno se deu de um modo imprevisto. Aceitou uma carona de avião de um amigo argentino, mas antes teriam que seguir para Miami, onde entregariam encomendas. Tiveram que esperar por um mês até que Che obtivesse visto de entrada nos Estados Unidos. Enfim, de volta ao lar, retomou os estudos e em março de 1953 tornou-se médico.

Parte em agosto do mesmo ano para uma viagem sem retorno ao seu país natal, ao menos não voltaria a residir na Argentina. Após uma viagem de 6.000 Km de trem chega novamente a La Paz. Cabe ressaltar que sua ida à Bolívia deveu-se exclusivamente por motivos econômicos. Era o modo mais barato de chegar à Caracas, onde pretendia reencontrar Granados. A Bolívia vivia um momento atípico com a subida ao poder, que ocorrera no ano anterior, do Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR). Embora Guevara tenha se impressionado inicialmente com o novo regime boliviano, esse encanto duraria pouco, pois percebeu o nascimento de uma casta de burocratas privilegiados pelo novo regime.

Da Bolívia seguiria para o Peru. Após várias semanas, e em situação financeira precária, conseguiu uma passagem para o Panamá, passando por Quito, juntamente com o amigo Ricardo Rojo. Nesse momento, ainda que não soubesse, o seu destino seria definitivamente alterado. Rojo e os demais companheiros de viagem convenceram Che a seguir até a Guatemala, onde ocorria um movimento revolucionário mais radical do que o que assistira na Bolívia. Do Panamá seguem para San José, na Costa Rica.

Foi na Costa Rica que ele, pela primeira vez, teria contato com 2 cubanos, sobreviventes do assalto ao Quartel Moncada, primeira e frustrada tentativa de Fidel Castro de derrubar o regime de Batista, e que lhe custaria alguns anos de prisão, mas não a determinação de levar a cabo seu intento. Mais tarde, já na Guatemala, Che encontraria outros exilados daquela operação. Outro fato importante a destacar do seu período costarriquenho é que lá ele pode presenciar a ação dos “tentáculos” dos imperialistas e teria dito que na Costa Rica “tive a oportunidade de passear pelos domínios da United Fruit, confirmando como são terríveis esses polvos capitalistas” (Castañeda, p. 84). Foi ainda durante esta sua estadia naquele país que Che teve a oportunidade de presenciar o Governo submisso de “José Figueres, que desde 1948 procurava construir na Costa Rica um estado assistencial extenso e anticomunista” (idem).

Ainda que desde cedo fosse o leitor ávido já citado, autodidata acima de tudo, e um escritor atento, que desde cedo deixaria muitos diários e anotações de suas observações sobre “os mundos” que ia descobrindo, até esse momento temos um Che ainda não engajado politicamente, no sentido doutrinário e/ou partidário do termo, mas plenamente consciente das misérias a que estava submetida a maior parte da população latino-americana, enquanto uma minoria detinha o poder econômico, político e militar, quase sempre combinados e/ou em perfeito conluio: os grandes latifundiários, ideologicamente norte[1]americanizados, quando não eles próprios testas-de-ferro dos interesse dos EUA nesse processo de exploração da população local, interessados em manter o status-quo vigente. Seu antiamericanismo, que já vinha de longa data, torna-se extremado diante deste quadro. Já por essa época, ou um pouco depois, iria se declara comunista, mas muito mais como para marcar uma posição desafiadora em relação ao seu mundo contemporâneo do que por sê-lo de fato. Apesar de suas inúmeras leituras ele mesmo confessaria em 1955 que “passava o tempo livre estudando São Karl [Marx] de uma maneira informal” (Castañeda, p. 107). Não tinha iniciado ainda o seu processo de absorção plena sobre o comunismo, não tinha se submetido partidariamente em nenhuma formação de quadros políticos de qualquer natureza.

Aliás é um grande equívoco imaginar que os “barbudos” que dali a alguns anos entrariam triunfalmente em Havana eram comunistas “natos”, ou quadros formados por um movimento comunista internacional, ou, mais errôneo ainda, o fariam com o apoio da União Soviética. A Revolução Cubana, política e ideologicamente falando era quase uma folha em branco a ser escrita. O quase fica por conta de uma convicção natural de Guevara que faz supor que nesta folha fictícia já estivesse escrito por suas mãos uma única observação: não se submeter nunca aos interesses imperialistas norte-americanos. Anos mais tarde, a esta observação seria acrescentado um adendo que diria: nem soviéticos. Mas entre uma observação e outra, muitas coisas ainda sucederiam.

Chegou à Guatemala no final de 1953, quase às vésperas do ano-novo. Em 1954 conhece e inicia seu relacionamento com Hilda Gadea, uma exilada peruana, militante experiente da ala jovem da APRA, que trabalhava com o governo de Arbenz, e com quem se casaria no ano seguinte, já no México. Dessa união nasceria sua primeira filha. Cabe ressaltar que, ao contrário de Che, Hilda tinha uma acentuada formação política e sua afinidade com ela era mais de caráter político-ideológica do que realmente um caso de amor.

Seus planos nesse momento era ficar 2 anos na Guatemala e de lá seguir para o México, trampolim de uma pretendida viagem à Europa e à China. Acabou por ficar breves 8 meses. Mas foi durante sua estadia na Guatemala, que realmente se iniciou o processo de amadurecimento ideológico de Che Guevara, pois foi onde ele viu em toda sua extensão o destino que aguardava aqueles que tivessem o atrevimento de desafiar os interesses imperialistas. Foi lá que ele se deparou num processo contra-revolucionário no qual foi impedido de resistir da forma que gostaria, de armas na mão.

A realidade política guatemalteca pode ser resumida do seguinte modo: em 1951, após uma rara eleição democrática no país, assume a presidência o coronel Jacobo Arbenz, político bem intencionado, sensível aos anseios e necessidades do povo que porém se mostraria fraco e vacilante no momento de enfrentamento contra os norte-americanos. Com pensamento e obras progressistas, Arbenz implementou projetos que interferiram em interesses e monopólios da United Fruit. Em 1952 o presidente assinaria um decreto de reforma agrária, estabelecendo pela primeira um imposto sobre a renda e consolidando reformas trabalhistas que incluíam os acordos coletivos, o direito de greve e o salário mínimo. Não fosse isso já suficiente para contrariar os interesses da poderosa empresa norte-americana, havia ainda uma questão ideológica que era a participação cada vez mais ativa do Partido Guatemalteco do Trabalho (PGT), na verdade o PC local, que apesar de pequeno era extremamente competente.

Com a intenção de derrubar o regime de Arbenz, mas querendo dar ao fato uma máscara de decisão interamericana, Washington convoca a conferência da OEA para março de 1954 em Caracas. O governo norte-americano não teve escrúpulos de pedir abertamente a condenação do governo de Arbenz, recebendo pleno apoio dos latino-americanos, México e Argentina sendo exceções. Mas mesmo estes países apenas se abstiveram. Não tiveram coragem de votar contra.

Foi nesse ponto que a fraqueza de Arbenz se mostrou fatal. Em junho de 1954 uma coluna dirigida e financiada pela Cia penetra na Guatemala, via Honduras, e força a renúncia do presidente, ainda que este, entretanto, não tivesse o exército contra si.

Até a renúncia de Arbenz, Che crê no desejo e na capacidade de resistência do presidente, tanto que em carta aos pais diz acreditar que “o coronel Arbenz é um tipo corajoso (…) e está disposto a morrer em seu posto caso seja necessário” (Castañeda, p. 91). Uma semana depois veio a renúncia. A partir desta realidade Che critica o fato de Arbenz não ter armado a população para que esta empreendesse a necessária resistência. O próprio Che se oferece para participar, e mesmo organizá-la, ao ser informado que não haveria resistência, esquecendo-se de que afinal não passava de um estrangeiro.

Consta que destas primeiras atuações efetivamente políticas surgem também as primeiras referências ao argentino nos dossiês da CIA. Mas são ainda anotações muito vagas e imprecisas daquele que seria um dos maiores dossiês daquela organização.

Após a queda de Arbenz, Che pediu asilo na embaixada argentina, onde ficaria por um mês, apesar de não serem claros os indícios de que ele corria risco de vida. É neste período em que esteve asilado que manteve contatos mais próximos com os comunistas.

Mesmo sentindo o gosto da derrota, da qual tiraria lições preciosas para a consolidação da Revolução Cubana, não permitindo que Fidel incorresse nos mesmos erros que fizeram fracassar o regime de Arbenz, conforme bem atesta Anderson, Che prefere seguir para o México, aonde chegaria em setembro de 1954, a retornar para a Argentina no avião enviado por Perón para repatriar os asilados.

Desempregado no México compra uma máquina fotográfica que durante certo tempo seria sua fonte de sustento, ironicamente fotografando justamente turistas norte-americanos. Consegue também um emprego mal remunerado de pesquisador de alergia no Hospital Geral. Novamente têm em mente viagens que não faria, pelo menos do modo previsto. Tencionava ficar 6 meses no México, visitar os EUA, a Europa e depois os países socialistas europeus e a URSS.

Em 1955 é contratado como fotógrafo para cobrir os jogos pan-americanos. Aliado a isso consegue uma bolsa no Hospital e assim consegue uma folga financeira.

Mas foi em junho daquele ano que sua vida começaria a tomar os rumos que o conduziriam a ser o Che que a história legaria para a posteridade. Nesse mês conhece Raul Castro, recém saído da prisão. Em julho (deixando de lado as possíveis divergências sobre o mês exato) Raul o apresenta ao irmão, Fidel Castro. A sua sorte estava selada.

IV – Rumo à história.

Independente de quando de fato tenha se dado o primeiro encontro entre Che e Fidel, importa é ressaltar que as afinidades foram imediatas. E embora Raul já fosse “um militante experiente do movimento comunista internacional” (Castañeda, p. 105), enquanto Che vinha das suas leituras “desestruturadas” de Marx e Lênin, Lucila Velázquez, à época namorada de Fidel, definiria que “sem Ernesto Guevara, Fidel jamais tivesse se tornado um comunista. Sem Fidel Castro, Ernesto Guevara talvez jamais tivesse sido algo além de um teórico marxista, um intelectual idealista” (Castañeda, p. 106). O próprio Fidel diria que “o desenvolvimento revolucionário [do Che] estava mais avançado do que o meu, ideologicamente falando. Do ponto de vista teórico, tinha uma formação melhor, era um revolucionário mais avançado do que eu” (idem)

A afirmação do próprio Fidel de que já na primeira noite Che se transformara num futuro expedicionário do Granma contradiz as palavras de Che em carta enviada aos pais, onde fala dos planos de viagens no futuro. Mas o certo é que logo depois ele seria incorporado no grupo de treinamento, cujo trabalho de preparação duraria aproximadamente um ano. Durante o período de treinamento obteve posições de destaque sempre por merecimento. Em tudo superava os companheiros e logo foi designado por Fidel como chefe de pessoal do acampamento, em abril de 1956, o que não deixou de causar um certo mal estar que seria entretanto superado. Porém essa fase preparatória ainda iria sofrer um duro revés em junho de 1956, quando os cubanos, Che incluído, seriam detidos pela polícia mexicana. Caberia ao próprio Fidel negociar a libertação dos revolucionários, porém ficariam detidos, além do próprio Fidel, Calixto Garcia e Guevara. Por fim Fidel é libertado, porém pesa contra Calixto e Che a situação migratória irregular. Foi a única detenção de Che Guevara, antes da derradeira, que se daria anos mais tarde na Bolívia, e nesse período ele sentiu na carne os maus tratos e a forma como agem as forças de repressão. Foram 57 dias de prisão e torturas, que poderiam ter sido evitados se Che, para desespero de seu advogado, não insistisse em reafirmar sua ideologia marxista, ao invés de simplesmente relevar suas convicções e negar tais acusações. Mas ao contrário, além de mostrar-se convicto e irredutível, ainda teimava em discutir e tentar convencer a todos da justeza da sua causa. Foi afinal libertado.

Vencidos os contratempos, e dentre eles o confisco de 20 fuzis e 50 mil cartuchos por parte da polícia mexicana, o Granma parte afinal na noite de 25 de novembro de 1955, tendo a bordo o argentino Ernesto Che Guevara como médico, com a patente de tenente. Eram ao todo 82 homens numa embarcação apropriada para 20 passageiros. Além do pessoal, o barco levava também água, comida, armas e munições, 2 canhões antitanque e outros armamentos. Não foi uma viagem nada agradável. O médico teve uma crise de asma e os demais tripulantes sofreram de enjôo. Nem para um caso, nem para o outro havia medicamentos. A viagem foi atribulada e lenta, e o desembarque, desastroso, ocorre fora do

local previsto. Grande parte do material bélicos e dos alimentos tiveram que ser abandonados. O sigilo do desembarque não funcionou, devido aos atrasos, de forma que o grupo já era esperado e teve que se dispersar pelo pântano, tornando-se presas fáceis aos militares governistas. A maioria foi aniquilada. Che foi ferido com um tiro no pescoço que embora não profundo provocou um grave sangramento. Porém prosseguiu com mais 4 companheiros em direção a Sierra Maestra, aonde chegaria depois de 16 dias de marcha, sem alimento ou água. Lá reencontrou Fidel e Raul. Dos 82 homens que partiram do México rumo a Cuba, restavam apenas 12 expedicionários.

Abrigados no cume da Sierra empreenderam com êxito um assalto ao posto militar de La Plata, que além de elevar o moral dos rebeldes, demonstrou a capacidade de superação às adversidades.

O período compreendido entre o desembarque, no início de 1956 e maio de 1957 seriam empregados no domínio de posições na Sierra. O grande combate dos guerrilheiros se daria em 28/05/57, quando sairiam vitoriosos do ataque a um quartel próximo à costa: a Batalha de Uvero. Em 21/07/57 Che recebe o título de Comandante, cabendo-lhe o controle da 2ª coluna do exército rebelde, composto por 3 pelotões de 25 homens cada um. A partir dessa nomeação Che começa a participar ativamente das discussões polêmicas e das divergências.

Convém ressaltar que o Movimento 26 de Julho, que seria o braço político do movimento, tinha um caráter eminentemente reformista, que tinha entre seus objetivos 5 pontos básicos:

  • O restabelecimento da Constituição de 40;
  • Uma reforma agrária;
  • Uma participação dos trabalhadores no lucro das usinas;
  • O confisco de terras obtidas de forma fraudulenta;
  • Um programa de reformas educacionais e habitacionais, além da nacionalização dos serviços públicos.

Ao que se pode perceber, nada muito diferente dos demais governos populistas latino-americanos. Talvez não seja demasiadamente errôneo supor que, aliado a outros fatores, a efetiva participação de Guevara a partir da consolidação da sua posição dentro do movimento tenha sido um elemento a mais, e muito forte, nas mudanças que ocorreriam posteriormente.

Ainda importa destacar que o movimento, além dos guerrilheiros da Sierra Maestra, era constituído também por seu núcleo urbano que era formado por uma rede de oposição à Batista. Iam desde ativistas sindicais e estudantis a comunistas e empresários progressistas. A partir de 1957 vai se iniciar um distanciamento entre os pensamentos liberais-nacionalistas da planície e os marxistas-leninistas da Sierra, defendido claramente por Guevara, principalmente por conta do manifesto de 12 de julho, endossado por Fidel (que posteriormente o repudiaria), que ficou conhecido como o Pacto de Miami, que comprometia Cuba, após a derrubada de Batista, a um modesto processo de mudanças. Políticos da planície “procuram usar a pressão da guerrilha para negociar com os militares e efetuar apenas reformas superficiais no regime” (Sader, p. 15). Se houve um momento de hesitação por parte de Fidel não é possível se precisar. Talvez fosse apenas uma jogada política. No final, entre a planície e a Sierra ele ficaria com a segunda. Mas, deste período em diante, até o triunfo final do processo revolucionário houve muitos momentos de tensão entre as duas facções, até o seu total desgaste.

Um fato que se deve avaliar é que até este momento, e mesmo após a vitória da Revolução, os EUA, mesmo sabendo da participação e do destaque de Guevara no processo, a de sua posição comunista, não pressentiram o que estava por vir. Tanto é que havia um embargo para venda de armas ao governo de Fugêncio Batista. Talvez, como assinalaria o próprio Che, os norte-americanos imaginassem que, uma vez derrubado o incômodo ditador, os jovens revolucionários pudessem ser doutrinados e se alinhassem com os EUA.

A vitória, ainda que distante, começou a se delinear a partir de agosto de 1958 quando, já sendo um,a força considerável, apesar de não se equiparar ainda a um exército regular, Fidel resolve abrir novas frentes, saindo dos limites da Sierra Maestra e dividir a ilha, na tentativa, que se mostraria acertada e frutífera, de exaurir o exército oficial. Esta estratégia seria oportunamente colocada por Che em seus textos sobre guerrilhas, como um padrão que deveria nortear futuros revolucionários em outras regiões.

Coube a Che comandar este segundo front, contando com 150 combatentes e sem o abrigo da Sierra. E a partir deste fato também se processa de modo sistemático a aproximação e incorporação efetiva dos comunistas, o que renderia desgastes nas relações com os liberais e as alas menos radicais do movimento. Por outro lado data deste período, e pode-se se supor desta aproximação, o primeiro ato revolucionário que foi a implantação de uma ampla reforma agrária na Sierra, que não contou com o apoio e a adesão da planície. Ainda assim Che Guevara posteriormente iria se referir a este ato pelo caráter limitado da reforma, que teria beneficiado “apenas” 200 mil famílias.

A decisão desse novo avanço e da abertura de novos focos revolucionários deve-se a derrota e retirada do exército batistiano da Sierra. Mas o que era uma inegável vitória e prova cabal de que o governo estava enfraquecido inspirava um enorme alerta. Era necessário se precaver contra um golpe contra Batista advindo das forças conservadoras e uma possível intermediação norte-americana no conflito.

Como se pode perceber com clareza, o tenente-médico expedicionário, o estrangeiro, o argentino que evitava expor suas impressões justamente por sentir que não lhe cabia opinar nas decisões que definiriam os destinos cubanos havia se metamorfoseado, por seus méritos, sem dúvidas, num verdadeiro comandante com voz e opiniões próprias, devidamente ouvidas, no homem de confiança do Comandante[1]em-chefe do movimento, num dos expoentes do movimento.

A partir de dezembro de 1958 as vitórias serão decisivas tanto para o movimento, como para a consolidação do mito revolucionário. Em 28/12/1958 a coluna de Che entra em Santa Clara, deixando os soldados de Batista aquartelados. Um trem blindado que trazia reforços em homens e armamentos é descarrilado. Após breve combate o exército se rende e a conquista do armamento será decisiva para a entrada em Havana. Pela primeira vez uma coluna rebelde teria o poder de fogo superior a qualquer outra, até mesmo do que sobrara do exército governamental. Porém os combates rumo à Havana persistem até 31/12/58. No dia 31 de dezembro, durante os festejos de ano-novo, Batista foge de Cuba.

É nesse período que conhece Aleida March, guerrilheira por quem se apaixona e com quem se casaria posteriormente, após se divorciar de Hilda Gadea.

Em janeiro de 1959 o exército rebelde entra em Havana. Em 2/5/59 é outorgada por decreto a nacionalidade cubana nata a Ernesto Che Guevara.

V – Os Equívocos de um idealista.

É impossível negar que a experiência de Che, adquiridas tanto ao longo da luta revolucionária, como a trazida da sua frustração da experiência guatemalteca, foi imprescindível para a consolidação da Revolução Cubana, aliado a isso o jogo de cena, as mirabolantes estratégias e o equilibrismo político de Fidel, que percebeu claramente que naquele momento era preciso dizer a cada um o que cada um queria ouvir. Não era hora de enfrentamentos. A Revolução, vitoriosa do ponto de vista militar, estava ainda em processo. O país empobrecido e frágil, as forças armadas desestruturadas. Não era realmente momento de bravatas, mas sim de cautela. O tempo mostraria o acerto de tais decisões. Quando os imperialistas norte[1]americanos se deram conta do que haviam permitido de ocorresse logo ali, há apenas 150 km de Miami, já era impossível, embora não tivessem cessado de tentar, reverter o processo. A invasão da Playa Girón, mas precisamente na chamada baía dos Porcos, em 1961, por forças anti-revolucionárias, treinadas e armadas pela CIA, encontrou uma Cuba já preparada para o enfrentamento, ao menos deste porte. E do episódio o saldo foi positivo aos cubanos, pois mostrara ao mundo que Cuba estava unida, e que tinha em Fidel um líder a altura de enfrentar as armadilhas e artimanhas norte americanas. E essa seria apenas uma dentre tantas. Mas, sem dúvidas a mais significativa.

Entretanto, fazendo uma análise crítica e imparcial, a história reservaria para Che Guevara uma série de questões cujas tomadas de decisões estavam sob sua responsabilidade. E visto no plano geral, fosse no plano administrativo, e posteriormente no plano político militar, ainda que em todas tenha se empenhado com ardor e com seu caráter irrepreensível de um homem plenamente dedicado às tarefas que lhe eram conferidas, veremos que ao fim das contas Che tomaria inúmeras decisões equivocadas. Chegando em certo momento a desagradar gregos e troianos, a ser visto com desconfiança pelos soviéticos e seus satélites. Mas até onde se pode afirmar, jamais perdera a confiança, o respeito e o carinho de Fidel, ao qual respondia na mesma medida.

Mas tais equívocos, se podemos assim denominá-los, não ocorreram por falta de discernimento, ou porque tomar tais decisões fosse mais cômodo, e elas nunca foram, não porque o experiente guerrilheiro, já uma lenda viva no seu tempo, tivesse perdido o que a vida lhe dera, uma visão de um mundo abrangente e a crença na possibilidade da construção de uma sociedade melhor e mais justa. Esta visão de mundo, as lições da guerrilha, a audácia, tudo isso ele já trazia tatuado na alma. Não se pode duvidar em nenhum momento de suas virtudes e de sua lealdade para com a causa pela qual ele afinal vivera e morreria.

Não há porque se tratar aqui dos episódios das execuções que se seguiram à Revolução e à participação de Che nelas. Fez-se naquele momento o que era necessário. Um movimento pós[1]revolucionário de tal envergadura traz isso implícito em si mesmo. Não havia sido diferente antes e não o seria depois. A dimensão que se deu a este momento é por demais hipócrita para que se trate dela, principalmente se tivermos em mente que os que mais se mostraram “indignados” foram justamente os norte-americanos, em cujo passado recente não tinham tido o mesmo sentimento ao jogar sobre o Japão duas bombas atômicas, diante do que as vítimas das execuções cubanas eram um traço invisível diante do número de vítimas inocentes deste episódio ao final da 2ª Guerra. E ainda mais se considerarmos que estes mesmos norte-americanos não se mostrariam tão “sensíveis” quando seus governos-satélites implantados por golpes militares na década de 60 e 70 por todo o continente latino-americano varressem e manchassem o continente com torturas e execuções.

Mas dentro dos equívocos citados, convém destacar que, tendo um país a ser reconstruído, e desta reconstrução Che era figura fundamental, foi precipitada a tentativa de exportar, ao menos naquele momento, a revolução para o Panamá, para a Nicarágua, para a República Dominicana e para o Haiti. Todas fracassadas e em todas percebeu-se a sombra de Guevara. E isso não passaria mais desapercebido pela CIA, como aliás mais nada que se referisse ao agora cubano-argentino.

No plano interno a hora era de cuidar de 3 assuntos de extrema importância: A questão da reforma agrária, a reconstrução de um exército e a criação de um serviço secreto. E nenhum deles, embora tendo Fidel como figura central e decisiva, passariam ao largo de Guevara.

Para a questão da reforma agrária cria-se o Instituto Nacional de Reforma Agrária (INRA) que responderia também pela questão da saúde, habitação, educação e pelo processo de industrialização no campo. Atingido através de suas multinacionais, os EUA começam a se preocupar e a preparar represálias.

A criação do novo exército teria que partir da estrutura confiável naquele momento. A espinha dorsal é o próprio exército rebelde e são recrutados elementos do PSP, cujas divergências com Che seriam de ordem tática, não ideológica. A ideologização do novo exército cubano com a opção claramente comunista, apesar de ser percebido de modo impreciso num primeiro momento pelos norte-americanos, seria logo visto com clareza e temor.

O serviço de segurança do Estado, cuja elaboração remonta a janeiro de 1959, contava com a participação, entre outros, de Raul Castro, de figuras revolucionárias de destaque, de elementos do PSP, além de um enviado soviético.

Quanto a Fidel, é difícil precisar neste momento o modo como realmente via da questão da ascensão dos comunistas no governo, vindos através de Raul ou de Che, e se sobre a questão de um aparente alinhamento com os soviéticos o que havia era um jogo de cena ou uma indecisão propriamente dita. Assim como se certas posições discordantes com seus mais próximos colaboradores, algumas ríspidas e com comentários ferinos eram reais ou ensaiadas? afinal Fidel, segundo Carlos Fraqui “pensava que seria fatal afrontar os EUA antes do tempo. Por isso, tratava de fazer com que todos acreditassem que ele mantinha sua clássica postura contrária aos comunistas” (Castañeda, p.189).

A dubiedade das atitudes castrista também se apresenta nas inúmeras viagens ao exterior a que submeteria Guevara, aparentemente nem sempre de acordo com os anseios deste em determinados momentos, fazendo-o sentir algumas vezes a sensação de breves exílios. Será isso um fato ou mais uma encenação da qual o próprio Che consentia? “Não oficialmente, é claro, seu afastamento temporário de Havana ajudava Fidel a criar a impressão de que estava, como havia insinuado nos Estados Unidos, ‘descartando-se’ do comunista argentino (…)” (Anderson, p. 490) A verdade é que após sua primeira e longa estada fora de Cuba, 3 meses entre o Oriente Médio, Índia e Japão, consideradas satisfatórias, retorna à Ilha e assume o Departamento de Indústrias do INRA e posteriormente o Banco Nacional de Cuba. Essa nomeação, assim como a de Raul para o Ministério da Defesa e do secretário deste, Augusto Martinez Sanchez para o Ministério do Trabalho, era uma clara indicação do rumo que a revolução estava tomando. Foi no comando do Banco Central que Che aprendeu os meandros da economia marxista. É nesse momento da vida cubana que se inicia o maior afastamento, não só político ideológico, mas também econômico com os Estados Unidos, e a conseqüente aproximação com a União Soviética.

A questão da compra do açúcar cubano, após o cancelamento da compra da cota americana assim como a questão da desapropriação das refinarias petrolíferas, tornou tensa nesse momento a situação da combalida economia cubana. Os soviéticos decidiram por fim comprar integralmente a cota norte[1]americana. Mas aqui cabe destacar um erro de interpretação que mais tarde levaria Che a rever definitivamente sua visão em relação aos novos parceiros.

No plano internacional estava se processando no bloco socialista a crise sino-soviética, e essa posição protecionista com relação a Cuba servia de fachada contra qualquer tipo de insinuação dos comunistas dissidentes de que o regime soviético estaria se acovardando perante os norte-americanos. O mesmo gesto se repetiria posteriormente na questão dos mísseis nucleares. Cuba, na verdade, serviria de “moeda de barganha” para forçar os Estados Unidos a desinstalar seus mísseis em bases na Alemanha e na Turquia. A URSS retrocedeu, conquistando muito pouco. Somente os obsoletos mísseis turcos foram desativados. Ao mesmo tempo, Che Guevara era visto como pró China, pelo seu discurso. “Sua argumentação em favor de um ‘papel de vanguarda’ para o Exército Rebelde – aparentemente não tomando conhecimento do papel dos trabalhadores urbanos e da organização tradicional do Partido Comunista – era uma blasfêmia teórica. Ao mesmo tempo sua pregação vigorosa da guerra de guerrilha rural e da revolução agrária revelava influência maoísta” (Anderson, p. 465). Além disso a sua ânsia de passar rapidamente da economia capitalista à comunista, pulando etapas era mais um sinal da intenção de repetir o “Grande Salto para a Frente” chinês empreendido por Mao Tse-Tung.

Sobre isso o próprio Che diria que “alguns companheiros soviéticos tendem a entende meus pontos de vista – sobre temas como guerra de guerrilhas como principal meio para libertação dos povos latino[1]americanos, ou o problema da autogestão financeira contra o financiamento orçamentário – como posições chinesas e tiram daí a conclusão de que Guevara é pró-China. Por acaso não posso ter minha própria opinião sobre essas questões, independente do que pensem os chineses? ” (Castañeda, p. 295).

Mas a verdade é que desde que lera um exemplar de Nova China, de Mao, ainda na Guatemala, livro que lhe fora emprestado por Hilda, Guevara sentiu-se atraído pela epopéia maoísta. Hilda relata que “foi a primeira obra que leu sobre a Grande Revolução. Depois que terminou de lê-la (…) ele manifestou uma grande admiração pela longa luta do povo chinês (…). Ele também compreendeu que o caminho deles para o socialismo era um tanto diferente daquele seguido pelos soviéticos, e que a realidade chinesa estava mais próxima dos nossos índios e camponeses (…)” (Anderson, p. 161).

O certo, porém, é não se pode descartar por completo que deste desencontro ideológico Che iria ser marcado e visto com má vontade pela cúpula soviética. Teria isso selado sua sorte na aventura boliviana?

Nesse sentido, Che esperava demais, recebia de menos e aos poucos se desiludia muito. Seus planos de industrialização acelerada da economia cubana não somente assustava os comunistas ortodoxos, como deles não obtinha mais do que vagas promessas, mas não um apoio sincero e decidido. Che começava a pressentir, não sem uma certa perplexidade o papel que o bloco socialista esperava que Cuba desempenhasse: o de um país satélite fornecedor de artigos primários e consumidor de artigos industrializados , só que ao invés de norte-americanos, soviéticos. Mas é verdade, e aqui voltamos aos equívocos de Che, que seus planos eram muitas vezes excessivamente mirabolantes e inexeqüíveis em boa parte.

VI – O hábil político e o eterno revolucionário.

De tudo o que foi dito até aqui, nesse “vôo panorâmico” que se inicia em 1928 e que é bruscamente interrompido em 1967, muito mais poderia se esmiuçar e se acrescentar, mas é necessário sintetizar o trabalho, e nesse sentido devemos fazer um corte nesse momento e analisar as duas principais figuras da Revolução Cubana e estabelecer-lhes o preciso perfil que encaminhará ao desfecho desta síntese biográfica de Ernesto “Che” Guevara.

Não obstante o fascínio mútuo e imediato que se estabeleceu entre Fidel e Che, a admiração e o respeito que existiu entre ambos, eram, em verdade, personalidades distintas que diante de um objetivo comum souberam trabalhar e vencer as diferenças em prol de um ideal.

Fidel era (e ainda o é) inegavelmente um político hábil, e é esta característica que faz com que, contra todas as adversidades, ele não só se mantivesse no poder até o os nossos dias, mas mantendo ainda a capacidade de inflar as consciências revolucionárias, e ainda que cada vez mais desgastado, traz o carisma que poucos conseguiriam manter ao longo de tantos anos.

De Guevara poder-se-ia, e deve-se, dizer o mesmo. Mas Che, neste ponto, tem uma vantagem. Ao morrer em combate na Bolívia, o homem vira mito. Os mitos não envelhecem, tornam-se como pinturas ou esculturas estáticas, ícones mostrando seus momentos de grandeza. A morte, neste caso, é a vitória do homem contra o desgaste da vida. E ao se manter vivo, Fidel enfrentou e enfrenta cada vez mais esse processo de desgaste. Mas de um e de outro se pode tirar uma lição: diante de um ideal não é a vida nem a possibilidade da morte um empecilho para que se lute por ele.

Talvez a habilidade política de Fidel, sua compreensão do momento e das limitações que tantas vezes se impõem, o seu saber caminhar nas adversidades, o tenha feito compreender, num dado momento, que Cuba chegara onde podia chegar, ao menos naquele instante. Era hora de tocar a vida, elevar as condições de vida do povo que acreditara na Revolução, cuidar, enfim, do país tão duramente conquistado. Talvez não seja errôneo pensar que se dependesse dele Che teria ficado em Cuba, ou assumindo um posto re relevância efetiva, ou um posto honorário, que lhe desse essa aparência relevante. Talvez representando o país e a Revolução perante o mundo. Quem melhor do que o Che para desempenhar esse papel?

Mas Che era um idealista, um revolucionário por natureza, um guerrilheiro. Cuba, para ele, havia sido uma de suas realizações. Mas ele almejava mais. Não pela vaidade pessoal que nunca tivera, mas pelo seu próprio espírito humanista. Se num determinado momento queria uma América Latina livre do jugo do capitalismo norte-americano, logo iria desejar mais. Passou a desejar não somente um continente livre, queria a liberdade de todos os povos oprimidos e subdesenvolvidos. E na busca desse ideal deixou tudo para trás: suas conquistas, a família, a perspectiva de uma vida tranqüila, nada disso iria barrar seu idealismo. E na busca desse ideal iria começar a analisar por onde começar as tarefas. Equivocadas tarefas, repetimos, mas dignas do homem que lutou e morreu pelo que idealizou.

Quanto a Fidel e Che Guevara pode-se dizer por fim que a ruptura era inevitável, mas mesmo aqui, na ruptura, assim como no encontro, o que vemos são aquelas situações que a vida nos apresenta, mas não explica. Nunca brigaram, apesar de algumas divergências, nunca perderam o respeito e o carinho mútuo. Um quis partir, o outro deixou. Mas Fidel manteve-se fiel e apoio Che enquanto pode, assumindo riscos quando necessário, nas epopéias guevaristas. Mas há o caso boliviano. Ah, o caso boliviano, tão contraditório, de tantas suspeitas. Será que realmente Fidel, chegando a conclusão de que Che era um caso sem solução, abandonou-o, sabendo que, vivo, não se aquietaria, porém morto se tornaria um mito? Talvez seja injusto pensar assim e quem sabe Fidel não pudesse realmente fazer nada na ocasião? A história, muitas vezes, como quem deseja propor um desafio aos que a buscam, “enterra” a verdade dos fatos. Mas um dia eles vêm à tona, quase sempre.

VII – O equívoco africano.

Sobre a aventura no Congo Belga (Congo-Léopoldville) seremos breve. Se foi uma aventura na qual Che acreditou de fato, ela se mostraria errada desde o princípio. Tudo conspirava contra o levante. “Como disse Ahmed Ben Bella, ‘chegamos tarde ao Congo’.”(Castañeda, p. 322). E foi nesta luta perdida que Che sofreria penosamente seu penúltimo ano de vida. “Em meados de 1966, mais de seiscentos praças e oficiais cubanos estavam em terras africanas” (Castañeda, p.347). Após 8 meses de martírio, em novembro daquele mesmo ano, diante do avanço inimigo, à beira do lago que levaria os cubanos à salvação, encontramos um Che resistente à partida. Relutou em embarcar nas lanchas enviadas por Fidel para resgatá-los. Desesperadamente os cubanos ocupavam as embarcações, enquanto Guevara por 2 vezes insiste em ficar. Por último propõe sua permanência com poucos homens. É vencido afinal em seus argumentos. É inexplicável que tenham escapados vivos, pois a área estava cercada e eles poderiam ter sido abatidos durante a travessia.

VIII – A Bolívia: o equívoco fatal.

A derrota no Congo não tiraria de Guevara sua obstinação. Recolhido à Tanzânia, onde se recuperaria, recusa-se a voltar a Cuba. Seu sonho agora era a Argentina. Mas não para viver confortavelmente em sua terra natal. O objetivo era revolucionário.

Diante desse persistente e suicida desejo de partir rumo à Argentina, Fidel, Aleida, seus auxiliares, todos enfim, buscavam uma alternativa que seduzisse o incansável revolucionário, e não o expusesse a riscos desnecessários. Tentou-se a Venezuela e a resposta do PC local foi negativa. O Peru também foi sondado e igualmente não concordou com a implantação do foco revolucionário. Decidiu-se por fim pela Bolívia, que também não acolheu bem a perspectiva, mas “aceitou” a proposta cubana.

Recentemente lançado nos EUA, o livro “Che Comandante”, de Paul Dosal, analisa o que teriam sido os erros estratégicos de Guevara. Diz Dossal que “seu temperamento agressivo e sua inabilidade política foram fatores importantes para a derrota na Bolívia” (Ferroni). Se essa visão tem algo de possível, devemos fazer uma reflexão. Porém, com certeza não é uma explicação definitiva do fracasso de alguém que tivera uma atuação tão eficaz e decidida durante todo o processo cubano. Teria o Che desaprendido tudo?

Cabe destacar a posição soviética nesta questão. A orientação de Moscou de não implantação de guerrilhas, a falta de apoio e a submissão dos PC’s latino-americanos ao bloco soviético foram decisivas para selar a sorte da guerrilha boliviana e a do próprio Che. Apesar da aparente concordância do PC boliviano à causa, em tudo ele criou dificuldades e embaraços, desde a localização diversa da originalmente escolhida, e bem mais apropriada ao núcleo revolucionário, até a total falta de apoio logístico e de envio de combatentes.

Tal qual no congo, a guerrilha boliviana nascera fadada ao fracasso, e o que era pior, fora traída no berço. E a traição não viera, como se poderia esperar e até entender, de simpatizantes do governo estabelecido, mas do seio da própria esquerda, ou local, ou continental, em sinal de respeito (melhor dizer submissão) à mãe-pátria do socialismo.

O fato é que, abandonado por todos os lados, sem nenhum canal de comunicação com o mundo, Guevara prossegue com o pouco que restara do seu Grupo.

No dia 18/10/1967, num início de tarde, cercado por todos os lados, Che, não sem antes tentar executar manobras e dar ordens de combate, e entrar efetivamente nele, ferido com um tiro na perna e ainda assim tentando escapar, é finalmente preso.

Restava então aos militares bolivianos decidir o que fazer com seu “troféu”, que naquele momento era mais que um problema. Quantos grupos guerrilheiros cubanos não seriam capazes dos atos mais ousados para libertar o Comandante Che Guevara? Quantos atentados e seqüestros não seriam praticados com essa finalidade? Entregá-lo aos norte-americanos feria o orgulho nacionalista dos militares bolivianos. Um julgamento nos moldes tradicionais era impensável, tal a pressão que se exerceria. A execução restara como a última alternativa possível. E assim foi feito: seis tiros, um dos quais no coração, tiraria da vida o homem para elevá-lo à condição de mito. O mito que ainda hoje conhecemos.

E vale à pena lembrar os versos de Alex Polari, escrito em homenagem à toda uma geração dos conturbados anos 60, sem dúvida a década em que Che Guevara marcara definitivamente para si e para todos os que de algum modo tentaram lutar contra a opressão e pela justiça social.

“Mas foi bela a nossa procura,
Ah! moça, como foi bela a nossa procura,
mesmo com tanta ilusão perdida, quebrada,
mesmo com tanto caco de sonhos,
onde até hoje a gente se corta”

IX – Suas idéias e seus ideais: pelo que viveu e morreu.

Em todas as funções que desempenhou, Che sempre colocou o homem em primeiro plano, tudo era decidido a partir do social. Ele sempre procurava que o conjunto da sociedade agisse sobre cada um de seus membros e que, ao mesmo tempo, o indivíduo contribuísse para a construção da consciência social. Era o ideal do “Homem Novo”, do qual ele mesmo daria exemplo através dos inúmeros trabalhos voluntários efetuados em diversas ocasiões, que ele assumiu como exemplo para todos.

Sobre este Homem Novo, vale à pena ler o testemunho de René Dumont, economista marxista francês, que lhe sugeriu um trabalho remunerado extra durante a entressafra, logo descartado por Che sob a alegação de que essa hipótese iria contra “uma espécie de visão ideal do Homem Socialista, que se tornaria um estranho ao lado mercantilista das coisas, trabalhando pela sociedade e não pelo lucro. Ele se mostrou muito crítico do êxito industrial da União Soviética, onde, segundo ele, todos trabalham, se esforçam e tentam ir além da sua quota, mas apenas para ganhar mais dinheiro. Ele não achava que o Homem Soviético fosse realmente um novo tipo de homem, pois não o considerava, na realidade, em nada diferente de um yankee. Ele se recusava a participar conscientemente da criação em Cuba de ‘uma segunda sociedade norte-americana’.” (Anderson, p. 551).

Da sua visão de mundo, adquirida desde suas primeiras aventuras ainda na Argentina, até os diversos embates que empreendeu, além é claro de suas leituras ecléticas desde a juventude, Che desde muito cedo adquiriu o hábito de escrever. E escrevia às vezes freneticamente, ardorosamente, apaixonadamente, como só o faz quem traz dentro de si um ideal pelo qual vive e morre.

Dentre o muito que se poderia extrair desta faceta de Che Guevara, alguns trechos são destacados. Não por ordem cronológica ou de importância. É apenas uma modesta amostra que é possível nesse momento:

  • A guerra nos transformou completamente. Não há experiência mais profunda para um revolucionário que a ação da guerra; não a ação isolada de matar, nem a de carregar um fuzil ou estabelecer um combate de tal ou qual tipo, mas a ação da guerra no seu conjunto.
  • Viver continuamente em estado de guerra cria na consciência do povo uma atitude mental de adaptação a esse fenômeno novo. É um processo longo e doloroso de adaptação do indivíduo para resistir à amarga experiência que ameaça sua tranqüilidade.
  • Demonstramos que um pequeno grupo de homens decididos e apoiados pelo povo e sem medo de morrer (…) pode se impor a um exército regular (…). Há outra [lição] para nossos irmãos da América, situados economicamente na mesma categoria agrária que nós: é preciso fazer revoluções agrárias, lutar nos campos, nas montanhas, e dali levar a revolução às cidades, não pretendendo realizá-la nestas sem conteúdo social integral.
  • Esta é uma revolução singular em que alguns viram uma contradição com uma das premissas mais ortodoxas do movimento revolucionário, assim expressa por Lênin: “Sem teoria revolucionária, não há movimento revolucionário.” Convém dizer que a teoria revolucionária, como expressão de uma verdade social, está acima de qualquer enunciado; isto é, a revolução pode ser feita se a realidade histórica for interpretada corretamente e se são corretamente utilizadas as forças que nela intervêm, mesmo que se desconheça a teoria.
  • Podem-se apontar em Marx, pensador e investigador das doutrinas sociais e do sistema capitalista que lhe coube viver, certas incorreções. Nós, os latino-americanos, podemos, por exemplo, não concordar com sua interpretação de Bolívar ou com a análise que ele e Engels fizeram dos mexicanos, inclusive admitindo certas teorias das raças e nacionalidades hoje inadmissíveis. Mas os grandes homens, descobridores de verdades luminosas, vivem, apesar de suas pequenas imperfeições, e estas servem para demonstrar-nos que são seres humanos.
  • Um raquítico de cabeça enorme e tórax dilatado é o “subdesenvolvido”, porque suas pernas débeis ou os seus braços curtos não se harmonizam com o resto da sua anatomia por causa dos imperialistas, que desenvolveram anormalmente os ramos industriais e agrícolas.
  • O socialismo não é uma sociedade beneficente, não é um regime utópico, baseado na bondade do homem como homem. O socialismo é um regime a que se chega historicamente e que tem por base a socialização dos bens fundamentais de produção e a distribuição eqüitativa de todas as riquezas da sociedade, numa situação de produção social. Isto é, a produção criada pelo capitalismo: as grandes fábricas, a grande pecuária capitalista, a grande agricultura capitalista, os locais onde o trabalho humano era feito em comunidade, em sociedade; mas naquela época o aproveitamento do fruto do trabalho era feito individualmente, pela classe exploradora, pelos proprietários jurídicos dos bens de produção.
  • As leis do capitalismo, invisíveis para o comum das pessoas, e cegas, atuam sobre o indivíduo sem este se precaver. Apenas vê a amplitude de um horizonte que parece infinito. Assim o representa a propaganda capitalista que pretender extrair do caso Rockefeller – verídico ou não – uma lição sobre as possibilidades de êxito. A miséria que é necessário acumular para que surja um exemplo assim e a soma de malefícios que se comporta uma fortuna, não aparecem no quadro e nem sempre é possível às forças populares aclararem conceitos.
  • Há alguns meses tivemos de mudar uma funcionária do Ministério da Indústria, uma funcionária capaz. Porque tinha um trabalho que a obrigava viajar pelas províncias, muitas vezes com inspetores ou com o chefe, o Diretor Geral. E esta companheira que era casada – acho que com um membro do Exército Rebelde -, por não podia sair sozinha e tinha de subordinar todas as viagens que seu marido deixasse seu trabalho e a acompanhasse aonde tivesse de ir. Isto é uma manifestação grosseira de discriminação a mulher. Por acaso, uma mulher tem de acompanhar o marido a cada vez que este precise viajar pelo interior das províncias, ou para qualquer lugar, para vigiá-lo e evitar que venha a cair em tentações ou algo semelhante? O que isso mostra? Simplesmente que o passado tem peso sobre nós; que a libertação da mulher deve ser alcançar sua liberdade total, sua liberdade interna, porque não se trata de uma obrigação física que se imponha às mulheres retroagir em determinadas ações.
  • E então chegaremos à conclusão de que quase tudo que tínhamos pensado e sentido em épocas anteriores deve ser deixado para trás, e um novo tipo de ser humano deve ser criado. E se cada um de nós for o seu próprio arquiteto desse novo tipo humano, então será muito mais fácil criar esse novo tipo de ser humano – que será representativo da nova Cuba.
  • Devo dizer, correndo o risco de parecer ridículo, que o verdadeiro revolucionário é movido por sentimentos de amor. É impossível num autêntico revolucionário sem esta qualidade. Talvez seja um dos grandes dramas do dirigente; este deve unir a um espírito apaixonado uma mente fria, e tomar decisões dolorosas sem que nenhum músculo se contraia. Os nossos revolucionários de vanguarda têm de idealizar esse amor aos povos, às causas mais sagrada, e torná-lo único, indivisível. Não podem mostrar a sua pequena dose de carinho cotidiano tal como faz o homem comum.
  • O comunismo é uma meta da humanidade que se alcança conscientemente; logo, a educação, a liquidação das taras da sociedade antiga na consciência das pessoas é um fator de suma importância, sem esquecer, evidentemente, que sem avanços paralelos na produção não se pode chegar nunca a tal sociedade.
  • Não nego a necessidade objetiva do estímulo material, mas sou contrário a utilizá-lo como alavanca impulsora fundamental. Porque então ela termina por impor sua própria força às relações entre os homens.

Bibliografia.
1. CASTAÑEDA, Jorge G. Che Guevara, a vida em vermelho. SP, Cia das Letras, 1997.
2. SADER, Eder. Che Guevara, política. Série Grandes Cientistas Sociais, vol. 19, Florestan
Fernandes (Coordenador), SP, Ed. Ática, 1981.
3. ANDERSON, Jon Lee. Che Guevara, uma biografia. RJ, Ed. Objetiva, 5ª Edição, 1997.
4. GONÇALVES, José Alberto. Camarada Ernesto in Revista Aventuras na História, Edição nº 2, SP,
Ed. Abril, agosto de 2003.
5. REZENDE, Marcelo. A Flor do Meu Segredo in Revista Cult, Edição nº 76, SP, Ed. Bregantini, Janeiro de 2004.
6. FERRONI, Marcelo. A outra face de Guevara in Revista Galileu, Edição 151, RJ, Ed. Globo,
Fevereiro de 2004

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Che Guevara: Uma Síntese Biográfica

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